ENTREVISTA

 

 O avanço da Dengue em várias cidades do nosso país tem trazido o medo e a tristeza a muitas famílias. No intuito de sabermos mais sobre essa doença, e conhecermos as formas de combatê-la ou evitá-la, entrevistamos o médico infectologista Dr. Gustavo Mustafa Tanajura, que nos ajudou a descobrir como podemos colaborar nesse combate.

Foto do Dr. Gustavo Mustafa durante a entrevista.
abril/2008

- Como matar o mosquito da Dengue?

Evitar a Dengue é, principalmente, um trabalho de prevenção e que depende de cada um. Se as casas não tivessem água parada, não haveria o mosquito e não precisaríamos colocar venenos nas residências. O Fumacê, por exemplo, só seria utilizado em casos de urgência, não precisaria estar passando sempre, pois ela mata não só os mosquitos, mas também outros bichinhos que são necessários ao meio ambiente. Acho que basta a prevenção, evitando que o mosquito cresça nas águas paradas, através dos ovos que a fêmea coloca e que depois viram larva e, posteriormente, mosquitos. O importante é retirar toda a possibilidade de crescimento dos ovos na água parada, nos pneus velhos, caco de plantas, garrafas, cocos, e os tanques têm que estar cobertos. Às vezes, as pessoas abrem um coco, tomam a água, jogam fora nas ruas, e quando chove, entra água e, dessa forma, são criadas as condições para que o mosquito coloque os ovos.

- Quais são os sintomas mais comuns da doença?

Os sintomas são dor de cabeça, febre, dores no corpo, manchas vermelhas na pele. Porém, em torno de 20 a 50% das pessoas que são expostas ao vírus não desenvolvem nada, não apresentam sintomas. Por exemplo, você pode ter tido dengue e não saber disso. Outra parte dessas pessoas tem os sintomas bem leves, como se fosse um resfriado, um pouco de dor cabeça e febre. Alguns têm esses sintomas, e então, às vezes, você já teve Dengue e não sabe. Uma outra parte das pessoas desenvolve esse quadro com os sintomas evidentes que nós estamos vendo na TV, nas grandes filas nos hospitais. Apesar de ser uma pequena parte, é um número considerável. Algumas desenvolvem casos mais graves que podem até matar.

- Por que tantas pessoas morrem no Rio de Janeiro por causa da Dengue?

O problema, no momento, está no Rio de Janeiro, mas poderia ser em qualquer lugar do país. Por exemplo, a gente está aqui em Salvador na iminência de ter exatamente o que está acontecendo no Rio de Janeiro. Se não tivermos cuidado em relação ao mosquito, vai acontecer nos próximos meses. A gente está em uma situação quase semelhante ao Rio de Janeiro. Inclusive, aqui em Salvador já morreram duas pessoas, só que ainda não foi muito noticiado na imprensa. Nas emergências, as filas já estão começando a aumentar. Aqui na região da Cidade Baixa, nós temos uma alta taxa de presença desse mosquito e, basta um deles estar infectado, para disseminar a doença.

Foto do grupo de entrevistadores.

- A dengue mata?

Mata, sim. A gente vê os casos desse surto que está havendo no Rio de Janeiro. Nas últimas décadas, nunca houve tantas pessoas mortas por conta da dengue, muitas crianças pequenas morrendo. Em Salvador, no Hospital Couto Maia, duas pessoas morreram por esse motivo.

- É preciso tirar a água da piscina?

Essa é uma pergunta muito boa. Você percebe que em muitas casas, principalmente de bairros mais ricos, todo mundo quer ter piscina. Se a piscina é bem tratada, a água sendo renovada, se colocar cloro toda semana, não tem problema. Porém, tem gente que não limpa. É esse o problema da dengue: basta haver água parada para se ter a doença. O combate a dengue depende de todos nós, não apenas do governo.

   

Foto do Dr. Gustavo com parte do grupo. - Por que os mosquitos matam as pessoas?             

O que mata não é o mosquito, mas o vírus que o mosquito transmite. A dengue é uma doença causada por quatro tipos de vírus diferentes.

- O Brasil é um país que já tem um certo avanço tecnológico, um país que recebe muitos turistas. Como pode ter acontecido um surto como este?

Você falou uma coisa certa, o Brasil já tem desenvolvido grandes tecnologias, mas nós vivemos em um paradoxo, onde temos realidades bem desenvolvidas e, por outro lado, áreas pouco desenvolvidas. Por exemplo, os lugares onde tivemos um maior número de casos de Dengue foram locais onde a saúde pública funciona mal. No Rio de Janeiro morreram muitas pessoas porque não há um programa de assistência médica bem desenvolvido. Em Salvador nós temos o Programa Saúde na Família, porém, no Rio, esse programa não existe. Então, não há uma ação preventiva.

- Como um caso de dengue pode virar um caso hemorrágico? 

Nós temos quatro tipos de vírus, mas a doença é a mesma. Por exemplo, você tem a Dengue por causa do primeiro tipo de vírus, e pode não ter hemorragia. Na segunda vez que você é contaminado por esse mesmo tipo de vírus, a resposta do organismo é mais eficaz, você está imune a esse tipo. Se você já teve a Dengue uma vez, com esse tipo de vírus você não vai ter mais a doença. Porém existe a possibilidade de que você tenha a doença por causa de algum dos outros três tipos de vírus, ao longo da sua vida. O grande problema é que, quando você teve a Dengue, na segunda vez geralmente é mais forte, porque a resposta do organismo é mais intensa. Algumas pessoas têm sangramento, queda de pressão, etc. As reações são diferentes nas pessoas, algumas têm problemas no fígado por exagerarem na medicação, ou outras reações. Por exemplo, para tratar a dengue, muitos usam os remédios que todo mundo costuma tomar, como o Paracetamol. Ele melhora as dores no corpo, só que, em doses exageradas, também pode ocasionar problemas no fígado, e este vírus também pode causar lesões no fígado. Então, pessoas também podem ter morrido no Rio de Janeiro por causa disso. Uma morte ocasionada porque o fígado deixou de funcionar. O quadro de hemorragia pode acarretar o sangramento interno nos órgãos.

- Se a pessoa descobre a Dengue hemorrágica logo no início, como é feito para tratar? 

Se os médicos conseguissem reconhecer a dengue hemorrágica logo no início, provavelmente ninguém morreria de dengue. Nesses casos, a pessoa tem que ficar internada sendo hidratada, usando soro e, às vezes, receber sangue.

Foto de parte do grupo de entrevistadores.

 

 

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