ENTREVISTA
Nos dias
de hoje, o aumento da violência é uma preocupação cada
vez mais presente em nossa sociedade. Para abordar essa
difícil temática, nossos alunos convidaram o oficial da
Polícia Militar do Estado da Bahia, o Tenente-Coronel
Carlos Augusto Gomes Souza e Silva, um pesquisador
nessa área, que é o entrevistado desta edição.
Agradecemos ao Coronel Gomes por atender nosso
convite e pelas informações e reflexões partilhadas
conosco. |

Outubro/2007
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- Qual é a sua formação ?
Sou oficial formado pela Academia
de Policia Militar da Bahia, tenho graduação em Engenharia
Civil, Especialização em Segurança Pública pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
e, pela Universidade Federal da Bahia, tenho Mestrado
em Administração. Hoje eu trabalho na Casa
Militar do Governo do Estado da Bahia.
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Por que a criminalidade cresceu
tanto em nosso país?
A criminalidade é uma face de
um quadro de violência que existe lá fora, é apenas uma das suas
extensões. Para explicar esse aumento, existem muitas versões.
Uma dessas versões refere a falta de uma priorização da
discussão dessa problemática. A questão do trabalho é outro
fator citado, a precarização do trabalho, que ocorreu no final
do século passado, dando lugar a um quadro de desemprego e
informalidade nas relações trabalhistas. Hoje se tem muito
presente o trabalho informal, como o de camelô e de outras
atividades. Uma outra questão é a necessidade da priorização do
acesso à educação, porque quando se tem uma educação de
qualidade, aumentam as possibilidades de se chegar a um trabalho
formal. Essas áreas não foram devidamente priorizadas nos
últimos tempos. O quadro da saúde é outra questão, pois se não
se tiver saúde não é possível trabalhar, estudar, nem fazer
nada. Vejam bem que essas áreas todas vêm enfrentando problemas,
dificultando uma qualidade de vida melhor para grande parte da
população. Um outro ponto refere-se a questão dos valores que
são cultuados hoje. A corrupção é uma doença da sociedade e os
valores como honestidade, ética, não estão tendo a necessária
valorização no mundo de hoje.
- E isso tem a ver com
a desigualdade social?
Exatamente. Tudo isso resulta num
quadro de exclusão de uma grande parcela da população, quando as
oportunidades não são iguais para todos. Essas pessoas que ficam
de fora são chamadas de excluídas.

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- Como terminar com a
violência?
A violência é uma
realidade que vem desde os primórdios da nossa história,
só que ela se apresenta de diferentes formas ao longo do
tempo. A nossa violência é principalmente a do tipo
social, que tem vinculação com as formas de relações
sociais dos nossos dias e com os valores enfatizados no mundo de
hoje. O fim da violência tem a ver com a mudança dessas
relações e desses valores.
- Na sua opinião o que
está fazendo com que a violência cresça cada vez mais
entre os jovens?
Os jovens hoje são as
maiores vítimas da violência. O maior número de
homicídios ocorre entre pessoas de 16 a 24 anos. Porque estão entrando no
mercado de trabalho, estão procurando emprego, eles
ainda não têm uma estabilidade na vida, estão em busca
de uma vida melhor. Os jovens hoje estão submetidos aos
apelos do consumo, são bombardeados por propagandas,
pela mídia, que valoriza mais a aparência e o consumo.
Porém são os jovens os que mais reclamam, os que buscam
mudar as coisas no mundo; são vocês os que gritam,
brigam, vão para rua, e isto incomoda os que não querem
mudar as coisas, os que querem que tudo permaneça como
está, mantendo os privilégios. Os jovens mais pobres,
frequentemente, não possuem um pai, mãe ou responsável,
com condições de orientá-los devidamente. Estas pessoas
também são as maiores vítimas do desemprego e
consequentemente ficam a margem das relações formais do
mercado de trabalho. Obviamente, isso não quer dizer que
quem não tem um trabalho necessariamente vá fazer alguma
coisa errada, mas sabe-se que as dificuldades são bem
maiores.
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- Se o senhor fosse um político de alto
poder, o que faria para acabar com a violência?
Eu
tentaria melhorar as coisas que dão origem a violência,
como investir nas áreas mais prioritárias: Educação,
Saúde, Trabalho e Assistência Social, sem ser
paternalista, mas uma assistência efetiva, que faça com
que a pessoa se desenvolva de forma mais independente. |
- Por que as
áreas pobres têm poucos policiais?
Este é um problema da segurança
pública. Sobre o efetivo policial, existe um índice que é determinado como ideal
em relação a quantidade de policiais para determinada região, que seria de um
policial para cerca de 250 habitantes. Hoje, em Salvador, nós temos um policial
para 417 habitantes, quase o dobro. A questão é investir, contratar mais gente,
fazer concurso. Hoje os concursos para a polícia são os que têm oferecido mais
oportunidades de emprego aos cidadãos no Estado, e é uma carreira que oferece
crescimento. A realidade é que são nas áreas mais pobres onde as inscrições dos
jovens para serem policiais são em maior número.
- Ouve-se que a dificuldade de
combater a violência nas ruas ocorre por causa de delegacias cheias, falta de
armas, além dos bandidos que são mais bem armados que a própria polícia,
principalmente em bairros onde o tráfico tem maior influência, violência e
corrupção policial, etc. Essas são realmente as principais dificuldades para
esse combate?
O policial tem obrigação de atuar
dentro dos limites da lei, ele não pode fazer o que quiser. Os criminosos não,
eles não têm esses limites. Por exemplo, num assalto a ônibus, em um confronto
entre policial e assaltante. O assaltante vai atirar, mas o policial não pode
fazer isto, ele tem que pensar numa melhor estratégia para não atingir as outras
pessoas. O policial não pode comprar uma arma sofisticada, tem que trabalhar com
a arma que o Estado lhe fornece, e frequentemente não é o equipamento mais
atualizado. Delegacias cheias também é outro problema: delegacia não é um
presídio, mas, sim, um local provisório de detenção, onde as pessoas aguardam o
andamento normal do processo e a transferência para os presídio, quando for o
caso. Por conta da ausência de vagas nos presídios, as pessoas ficam aguardando
por longos períodos por essa vaga, então as delegacias ficam superlotadas, o que
é um erro. Outra coisa é a necessidade de uma maior valorização da carreira
policial, pela sociedade em geral. Os desvios de conduta de um policial, como a
violência excessiva, corrupção, etc., também podem ocorrer, como em qualquer
profissão, e devem ser combatidos e corrigidos. Tudo isto são dificuldades para
o combate a violência.
| - O senhor acredita
que devem haver penas alternativas, ao invés de todos os
infratores serem colocados na cadeia? Como aplicar
outras penas, trabalho social, etc.?
Esse é um dos problemas do
nosso sistema prisional que é voltado apenas para o
cumprimento da pena, pura e simples, sem se ater
à recuperação das pessoas. Eu sou favorável às penas
alternativas, mas o problema está em quem vai fiscalizar
essas pessoas para que cumpram as penas. Será que isso
pode ser feito? De que forma? A realidade dos presídios
hoje é complicada. É uma coisa cara e ineficiente. Um
presidiário custa hoje mil e cem reais por mês para o
Estado; já um aluno custa cento e setenta reais por mês.
Então, é necessário investir mais em educação, para que
o sujeito não chegue a cadeia. |
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